segunda-feira, 24 de maio de 2010

domingo, 16 de maio de 2010

O que tenho sentido - apesar de tanta coisa junta acontecendo - é um extremo vazio.

E só.

domingo, 28 de março de 2010

Desses desabafos que eu fico sem palavras e sem saber que eu tô sentindo direito, é assim que começo. Tanta coisa engasgada, tanta coisa a ser dita e tanta coisa sentida que misturou-se tudo e não sei nem aonde estou. Quando conheço alguém, eu me anulo. Eu me anulo temporiariamente porque quero mergulhar num universo que não é meu, pra ver se entendo melhor o mundo. Quando conheço alguém, eu me abalo. Me abalo porque sou toda sentidos e quase nada de razão. Eu me abalo porque sou pequena e qualquer coisa que nasça não termina em mim, porque não cabe. Quando conheço alguém, eu penso demais. Penso porque sou incoerente e apesar do pouco de razão que tenho em relação aos sentimentos, sobra razão pra parte em que eu julgo o que tô fazendo, pra saber se concordo com a maneira que tenho agido e tentar chegar a alguma conclusão - sem muito sucesso na maioria das vezes. Eu me anulo. Eu me abalo. Eu penso demais. Eu sempre preciso de um tempo pra adaptação com o outro. Desde sempre os sentimentos foram confusos em mim e nunca soube definir nada. Se é confuso quando conheço, quando gosto, quando convivo, isso se amplifica quando não conheço, não convivo, mas gosto. Sem explicação. Tem gente que eu vejo, que eu descubro sem querer, que eu gosto e não tem porquê. Gosto pelo que tá na minha cabeça, gosto pela impressão que passa, gosto pelo sorriso que, sem querer, vi, gosto sem ter conversado mas mesmo assim acho que pensa como eu. O fato é que tenho me anulado e me abalado e pensado bastante em função de quereres não realizados. Quando paro pra pensar no que quero e no que acredito eu me decepciono comigo mesma, porque não tenho feito nada disso. Será que fiz um dia? Eu quero fazer algo que eu considere importante. Isso não tem a ver com trabalho que retorne em dinheiro no fim do mês, isso não tem a ver com caridade pra comprar a consciência no fim do dia, isso não tem a ver com o que seja padrão e óbvio. Tenho pensado em sair por aí e aprender. Aprender com gente. É a melhor maneira. Eu quero me envolver em discussões, em aulas, em casas, em mesa com toalha quadriculada em branco e vermelho, eu quero ter momentos de epifanias em lugares diversos, "quero ouvir, quero ver", eu quero viver. Eu preciso me envolver com aquilo que eu me interesso, eu preciso me posicionar diante do que eu acredito. Eu só falo. Só tenho discurso. E ainda tenho me perdido nisso, tenho perdido o pouco da teoria que tive. Eu não sei o que preciso fazer, não sei por onde começar e não sei como arrumar tempo pra isso tudo. Preciso de idéias, de pessoas, de teoria e de muito mais prática. O que eu percebo é que tô no caminho quando me refiro a leituras e músicas - mesmo que não tanto quanto gostaria. Mas preciso prestar mais atenção na parte em que eu faço e sou.

domingo, 14 de março de 2010

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eu preciso conversar com você. não há nada que você possa fazer a respeito disso, e nem quero que você diga nada. só que me escute. eu misturei as coisas. sabe, eu fui te conhecendo e você é tão melhor do que eu sequer podia imaginar. e a gente tem afinidade. e seu sorriso me deixa tão sem ação. sabe, eu sei que misturei tudo e você não tem culpa nenhuma disso. não tem culpa de ser da maneira que é. não tem culpa que justamente sua maneira de ser me encante tanto e me deixe tão boba. eu não quero que você diga ou faça nada. tô dizendo porque não posso morrer com isso dentro de mim. não posso passar o resto da minha vida com um sentimento engasgado. porque pra sempre eu vou te ver de longe e pra sempre vou pensar no que poderia ser dito ou feito. eu não digo por você. eu digo por mim. eu digo porque haja afta pra nascer na minha boca se eu não disser nada. eu digo porque não tenho mais nada a perder. sabe, nunca soube como era doloroso perder o que a gente nunca teve. mas agora eu sei. e dói. talvez mais ainda. eu posso passar o resto da minha vida aqui, tentando te explicar o que aconteceu comigo, o que aconteceu com tudo, o que não aconteceu, mas não dá. simplesmente não há o que explicar e eu já me estendi demais. é tão difícil pra mim dizer. é tão complicado. eu nunca fiz isso assim, desse jeito, antes. eu nunca disse pra ninguém o que quero te dizer. eu nunca precisei procurar. eu nunca me expus tanto. eu nunca mostrei tanto uma fraqueza. nunca dei a cara pra bater assim. eu nunca estive tão vulnerável. dói tanto dizer. mas dói mais ainda não dizer. e é por essa dor toda que eu venho sentindo e eu preciso e quero acabar com isso. a gente as vezes precisa colocar um ponto final nas coisas. a gente precisa dessas representações todas. a gente é muito bobo e precisa de coisas concretas pra representar tudo aquilo que é abstrato. eu não vou conseguir olhar nos teus olhos pra dizer isso. eu não vou conseguir me entregar a tal ponto. olhar no teu olho vai deixar a janela aberta, as portas destrancadas, tudo revirado e à mostra. e não dá. mas eu preciso te dizer mesmo olhando pra baixo. mesmo de um jeito torto e desajeitado. mesmo que você não queira mais me ver. sabe, eu prometo que entendo. eu deixei pra dizer agora justamente porque não tenho mais nada a perder. nunca te diria em outra situação. eu sei que é viagem minha, eu sei que não deveria, eu sei que misturei tudo, sei que você tem sua vida e vai continuar com ela do jeitinho que tá, eu não tô esperando atitude alguma, querer eu até queria - não vou ser hipócrita - mas não tô esperando nadinha, só quero que você me ouça porque eu simplesmente não posso morrer com isso dentro de mim.

eu gosto tanto de você. 

domingo, 14 de fevereiro de 2010

esboço do rascunho do texto.

Lá pela madrugada, entre um gole de café e uma página de Nietzsche, Madalena pensava em tudo o que vinha lhe acontecendo. Incrível como depois de tanto tempo havia o mesmo medo, a mesma dúvida sempre. Não gostava de admitir, mas no fundo entendia muito bem todos aqueles a quem julgava. Julgava simplesmente para disfarçar. Certa vez ouviu a irmã dizer numa conversa de boteco que mulher que fica com homem casado é vagabunda mesmo. E como não concordar? Não concordar assinaria um atestado de culpa. Não concordar mostraria uma possível fraqueza. Quantos de nós não concordam aparentemente com o dito para não precisar dar explicações ou ser mal interpretado - ou interpretado exatamente como somos?

"Sim, o que nos obriga afinal a admitir que haja uma oposição fundamental entre 'verdadeiro' e 'falso'"?

Minutos antes lera a afirmação de Nietzsche sobre a verdade relativa, sobre a verdade que cada filósofo carrega dentro de si e dentro de suas obras. Consequentemente a parcela de verdade que cada um de nós possui. E da parcela que suportamos. O que é a verdade, afinal?

A verdade é que cada momento seus conceitos se desmanchavam e cada pedaço de vida vivida, cada suspiro, cada pessoa fazia Madalena relativizar mais. A verdade é que criamos barreiras para não enlouquecer e Madalena só tentava se salvar. Como todos nós. A verdade é que tudo é uma grande mentira. A verdade é que estamos perdidos e sós.

Decidiu ir deitar e enquanto se virava de um lado para outro, vinha a imagem dele em seu pensamento. Mas quando se voltava para o lado direito, o 'ele' que aparecia era outro. Como admitir vontades e desejos? Como conciliar tanto sentimento? Como viver na verdade inventada por uma sociedade que se baseou em uma felicidade pré determinada para fundamentar a construção do Estado?

A verdade é que Madalena precisava se sentir viva com acontecimentos novos e intensos. Mas gostava de se sentir segura, de ter um porto para onde voltar. Seu porto era aquela cama, com aquele homem do lado, aquele cheiro conhecido, olhos já decifrados e a falsa segurança de ter aquilo tudo para sempre. Queria ir, mas precisava ter para onde voltar. E com medo de não conseguir voltar, Madalena nunca seguia. Nunca por falta de vontade, apenas por medo.

Madalena decidira por um minuto dar rumo novo à vida. Levantou da cama, separou rapidamente algumas roupas, colocou-as em uma maleta, beijou o rosto do homem deitado ao seu lado e foi. De camisola e pantufas. Assim, exatamente como estava. Andou até o portão de sua casa e olhou para trás. Lembrou de tantos anos, de tudo o que fora deixado de lado, dos sonhos não concretizados. Lembrou do sorriso daquele homem. Lembrou de suas mágoas, das brigas e implicâncias de tantos anos, de seus olhos e da falta de necessidade de qualquer explicação. Ele sempre entendia. 

Então Madalena tirou as pantufas e foi. Ou melhor, voltou. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

14 de dezembro de 2009.

Tempo,

A nostalgia é inevitável no fim do ano. Todos começam a falar de um ano novo que vem por aí, aspirando zilhões de projetos novos. É uma época que, querendo ou não, revemos o que temos feito das nossas vidas, o que queremos que continue, o que queremos mudar radicalmente, enfim, o que queremos. Desde que me entendo por gente sou como aquela frase de Oswald de Andrade sobre o modernismo brasileiro: "não sabemos o que queremos, mas sabemos exatamente o que não queremos". Sei bem o que não quero. Sei da minha cabeça dura e teimosia, mas me revejo periodicamente e tento, na medida do possível e com respeito profundo à minha essência humana - demasiada humana, ser alguém melhor. Talvez mais por perfeccionismo e orgulho do que por um motivo bonito. Mas é sincero.

2009 me deu muitos presentes. E como todo mundo pode constatar em época de amigo oculto, não gostamos de todos os presentes que ganhamos. Mas nem por isso eles deixam de ter sua importância. Recebi muitas coisas neste ano, espero que saiba levar daqui pra frente e usar quando necessário.

De coisas concretas foram alguns shows e peças, algumas viagens, uma carteira de motorista, fotos com gente que sou fã, o pior porre da minha vida, ligações queridas, pessoas muito especiais que conheci, pessoas muito especiais que permanecem, alguns milkshakes de nutella e de alpino, dois estágios realizados e uma entrevista de emprego que não deu certo, vááários emails, um all star de presente de aniversário, "Divã" - o melhor livro que ganhei no ano, um parabéns regado a guitarra e confusões de sempre.

Das coisas intangíveis não há a possibilidade de listagem, visto que a cada dia tenho novas, velhas, inúmeras crises e muitas delas totalmente não-contáveis. Mas posso dizer que aprendi e estou tentando aceitar certas coisas.

Não acredito em uma vida sem gente por perto. Sem relações entre as pessoas. É por meio delas que a gente estipula e revê valores, que nos comparamos com o outro e podemos determinar que tipo de pessoa queremos ser e quais companhias queremos enquanto você deixar.

Vinicius de Moraes disse que algumas das pessoas que ele considerava amigos, nem sabiam que eram. É assim que me sinto, porque considero e dou valor a gente que nem sabe quem sou e que não sei exatamente quem são. Eu fui ver meu ex professor de flauta tocar em uma creperia e conheci um barman. Nós conversamos enquanto eu estava lá, desabafei com ele algo que me incomodava e só era digno de ser dito a um desconhecido. Acho que todo barman tem algo de psicólogo. Pois ele me ouviu e disse o que pensava. Não lembro o nome dele, mas isso não importa. Ele foi importante. E por falar em psicólogo, voltei a fazer terapia. Tinha tentado três vezes, mas odiei todas as psicólogas que fui. Acho que lido melhor com homem mesmo. Certas coisas que eu digo a ele, não contaria - e não conto - a um psicólogo. Só a um amigo. Faço estágio na biblioteca do Ministério Público e tenho preconceito com engravatados desde que nasci. Atendi um promotor que conversou comigo, brincou e riu comigo e me deixou um pouco mais flexível sobre isso. Ele também foi importante. Antes do MP, estagiei em um lugar que conheci duas pessoas demais. Uma delas era minha chefe. É uma das pessoas que mais me faz rir no universo junto com a outra pessoa que é super sensível e gente boa. Eu espero que você as deixe perto de mim. Comecei a ter aulas de flauta com um super cara. Sabe um super cara? Alguém que eu admiro desde que ouvi falar, e agora com muito mais motivo. Nunca tinha conhecido alguém da internet pessoalmente. Pois que uma amiga e companheira de blogs veio à minha cidade e fui vê-la. Foi bem mais fácil e proveitoso do que achei que seria. E ela ainda diz que eu que sou a desbocada. Teve também o guitarrista. O Marcelo Tas que autografou meu livro lindamente. O bombeiro que eu conheci no início do ano. O grego que pega o mesmo ônibus e conversa comigo sobre espiritualidade.

As pessoas são a salvação. Porque com elas aprendemos a nos desiludir.

"Desilusão é simplesmente parar de acreditar que se é mais esperto que os outros"

Neste ano descobri que não sou nada esperta.

2009 me fez, finalmente, entender que por mais que se conheça, seja amiga, ande junto, considere, ame alguém, vai ferir essa pessoa e que a recíproca é certa. Que por mais que as pessoas me conheçam - e sim, em alguns pontos elas me conhecem melhor que eu mesma - elas não deixarão de fazer algo que vai ferir em função de seus interesses. E que eu farei a mesma coisa. Eu aprendi que um amigo que gosto muito dirá coisas que vão me machucar e ele não vai achar isso nada demais, não se dará conta disso e que, em algum momento, será preciso me afastar. Vi que muitas vezes as pessoas que tanto consideramos, que nos importamos e procuramos não farão o mesmo. E basta o silêncio pro contato acabar. Entendi que depois de dizer coisas que tenham ferido uma amiga querida não há como voltar atrás. Mesmo que ainda haja respeito e admiração, certas coisas não voltam a ser como eram antes. E posso conhecer alguém que inicialmente não faz muito bem, mas você e a convivência não deixam o lado bom passar despercebido.

Sabe, eu sei que nunca me dei muito bem contigo, mas reconheço que nossa relação tem melhorado. E que sempre foi por minha causa. No fundo, no fundo, você nunca quis me sacanear. Eu é que entendi tudo errado.
Tempo, eu só espero que em 2010 eu aprenda mais coisas. E com tanta intensidade como em 2009.

Obrigada por tudo,

Cissa.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

"Nascer é uma novidade e é um choque."








"Não acredito que haja apenas uma maneira de viver, com aventuras parcialmente aceitas e alguns excessos tolerados."

Gosto da Martha Medeiros. Recebi algumas crônicas por email, comprei um livro, gosto da maneira como ela se posiciona a respeito dos assuntos, da maneira como escreve. Há algumas semanas ganhei de aniversário um livro dela. Divã.

O professor de uma matéria que fiz chamada "Idéias filosóficas em forma literária" disse que ler um romance vale a pena quando há mudança a partir da leitura. Eu era uma pessoa antes de ler "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres" de Clarice, ou melhor, eu era uma antes de conhecer Lispector e sou outra a partir do momento em que a conheci. O mesmo acontece com Vinicius, Kundera, Carpinejar, Drummond e tantos outros.

Agora sou outra depois de "Divã". O livro mexeu com as minhas estruturas, não porque as tenha mudado radicalmente, mas porque as vi tão legitimadas, tão cheias de razão, com tanto sentido em mim que me deixaram confusa e sem saber como eu acho que as coisas devem ser.

A partir da análise da sua vida, Mercedes consegue identificar e reproduzir a transitoriedade da vida, a angústia disso tudo que passa e é tão difícil aceitar. O casamento, um rolo, a partida de uma amiga, por uma razão ou por outra. O fato é a ausência que invariavelmente fica com a partida de quem vai.

"Aprender a conviver com o efêmero é uma das tarefas mais duras que a vida impõe."

Mais do que isso, pra mim, o livro é uma desconstrução do que disseram que é certo e do que deve ser feito. Aponta a falta de respostas e que cada um que encontre a sua. Fala, sobretudo, do que é humano, de todos esses sentimentos confusos e do número de possibilidades que a vida oferece e que nós, normalmente, limitamos a uma só porque foi o que nos disseram. Este livro é a liberdade.

"Perigoso é a gente se aprisionar no que nos ensinaram como certo e nunca mais se libertar, correndo o risco de não saber mais viver sem um manual de instruções."

A partir do livro procurei ver o filme e é estranho ver tanta coisa platônica - ou seja, o que estava no campo das idéias - materializada. Faria coisas diferentes, diria o texto em tom diferente. Gostei do filme, mas acho o livro profundo demais pra ser materializado. Acho que entendi o mundo das idéias de Platão e da nossa cópia imperfeita agora.

"Para onde vai tudo o que a gente pensa e reprime, tudo o que a gente ouve e estoca, tudo o que a gente lê e compreende, tudo o que a gente vê e não toca? Para onde vão as idéias que a gente consome e os sentimentos que nos envergonham?"

A partir das nossas leituras é possível partilhar a vida com o outro, é possível nos colocar no lugar do outro e é assim que paramos de julgar para compreender. Eu compreendo Mercedes.

"Sozinha a gente apenas se preserva. A nossa existência, pra valer, só se confirma através dos outros."

Ao ser levado aos tribunais por causa do escândalo causado por Madame Bovary, Flaubert disse a famosa frase: "Emma Bovary c'est moi".

Mercedes é uma mulher de mais de quarenta anos, com filhos jovens, separada, amante das artes plásticas.

Eu tenho vinte e dois anos, não tenho filhos e não sei se quero ter, não tenho marido e não sei se quero ter, e um dia, mesmo que distante, quero tocar flauta bem.
Por todas essas diferenças por fora e tanta semelhança ao chegar mais perto é que digo:

Mercedes sou eu.

domingo, 29 de novembro de 2009

'outras frequências'

Pra mim, há uma grande diferença entre barulhos e sons.

Barulho é aquilo que acontece de manhã. Aquilo que confunde meu cérebro quando acordo, que irrita. É ter de conversar de manhã cedinho. Odeio barulho de liquidificador de manhã cedinho. Odeio barulho de manhã cedinho.

Nas músicas é fácil identificar o que mais gostamos de ouvir, aquilo que nos toca. Adoro a flauta da Madalena nas músicas do Oswaldo, o teclado em "Ponto Fraco" do Barão Vermelho, a gaita nas músicas do Chimarruts, as quatro primeiras notinhas da guitarra em "Cheia de Manha" do Móveis, a percurssão que arrepia do Cordel, cada detalhe muito pensado nas músicas do Engenheiros, do 'ta-ra-taan' no início de "I'm yours" ou o 'tan tan tan' que meu pai faz no violão no meio de "A Rita" do Chico Buarque.

Mas o que mais gosto é de pensar nos sons bobos e discretos do dia-a-dia, que na maioria das vezes estão lá, tão depercebidos, completando nossa vida sem que nos demos conta.

Eu gosto, por exemplo, do som discreto que o grafite faz ao riscar o papel. E como eu sou canhota, tenho mania de arrastar as páginas do lado direito do caderno pra escrever desde o início da linha, e gosto de ouvir uma folha arrastando na outra. Também gosto do som das folhas dos livros quando passamos muito rápido e de quando colocamos um livro sobre o outro. Um barulho - irritante pra maioria - que gosto é do apito da máquina que magnetiza/desmagnetiza livros na biblioteca. E também quando estamos organizando os livros no carrinho.

Gosto de som de coceira. de espirro. do pente no cabelo. do cortador de unhas. barulho de lixa me dá gastura. gosto do giz no quadro e de quando o professor pinga os 'is' com força com o pincel no quadro branco. do som do teclado quando eu digito rápido. das roupas sendo estendidas no varal. da caixa da minha flauta quando fecha. das portas do guarda-roupa fechando devagar. da janela sendo aberta. da água enchendo o copo. do gás do refrigerante escapando da garrafa. de sussurro. de beijo. de respiração. de esguicho de perfume. da tampa do hidratante. de abrir papel de presente. de pisar em folhas secas. de brincar de escorregar em chão ensaboado.

Me dei conta há pouco - ou melhor, soube expressar há pouco - de que gosto muito do som dos passos das pessoas. Gostava de ver o desenho do scooby-doo só para vê-los correndo e ouvir muitos passos ao mesmo tempo.

Mas gosto mesmo, mais ainda, do silêncio. Do silêncio das palavras e - algumas vezes - do pensamento. Porque só assim mesmo pra gente parar e ouvir isso tudo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Falso retrato.

Hoje acordei e vesti um casaco. Até aí, nenhuma novidade. Visto um praticamente todos os dias. Mas vesti um casaco antigo, que fica grande em mim e chega a dar a impressão de que não é meu. Ao vê-lo no guarda-roupa, lembrei que ele tem um casaco igual ao meu. Preto, de zíper, com bolsos na frente e grande. Deve ter sido comprado no mesmo lugar e mais ou menos na mesma época. E nem lembro se já sabia quem era ele. Sei que peguei o casaco hoje de manhã e lembrei. Lembrei dele com o casaco preto num dia qualquer a noite, com a mochila nas costas e a chave do carro na mão. Lembrei e vesti por ser minha última opção. Mentira. Mas era a mais rápida. A última - ou a primeira - coisa que preciso e quero é ter uma lembrança tão perto e tão em mim. Tão em mim que não preciso olhar. Basta sentir e ele estaria, não do meu lado, mas abraçado comigo. Vesti o casaco mesmo assim, por pressa, por sono, por não ter idéia do que me causaria. Vesti o casaco, coloquei os fones no ouvido e escolhi o que haveria de mais óbvio pra ouvir. Andei olhando pra baixo, vendo o casaco que vi nele - e que não lembrava que tinha - em mim. Gosto de ficar em casa com camisa de homem. Desde criança gostava de dormir com as camisetas do meu pai, que me serviam de camisola. Acho bonito mulher em casa, vendo televisão, com a camiseta do namorado. A mulher fica ainda mais feminina com camisa de homem no corpo. E eu andava na rua com um casaco, preto, de zíper, com os bolsos na frente, igual ao dele. Casaco que eu não poderia saber da existência sem as terças-feiras à noite. Não saberia de nada sem elas. Não saberia do casaco, nem do cheiro, nem do abraço, nem do sorriso depois do abraço. E o fato é que quando os casacos trocam de corpos, misturam-se os cheiros e uma mulher fica mais perto quando veste o casaco de quem gosta. As terças me trouxeram um casaco que eu já tinha e um cheiro novo, que gostaria de ter no meu casaco - ou ter no corpo o casaco dele. O casaco me acompanhou o dia todo, e junto com ele a lembrança. A lembrança do que foi, do que não foi e do que eu gostaria que tivesse sido. E, durante o dia todo, eu quis o casaco dele. Eu quis o cheiro dele. E o pior de tudo é que eu ainda quero.

sábado, 10 de outubro de 2009

"Tem coisa mais terrível do que você descobrir a sua própria solidão? É muito ruim quando você se dá conta de que não adianta casar, não adianta ter filho, não adianta ter pai, não adianta ter irmão, não adianta ter amigo, não adianta ter nada, não adianta escrever, não adianta pintar, não adianta trabalhar, não adianta contemplar, não adianta saber que existe o cosmos, não adianta. Tem uma coisa que é você, que não é o outro, que é você e você não vai poder trocar de lugar com o outro, que tem um lugar lá que é intransponível, que é indizível, que você não pode compartilhar, que você pode ficar conversando, dialogando, tagarelando o dia inteiro com as pessoas, você pode ler tudo, você pode tentar transmitir todas as informações, pode fazer poesia pra morrer e tem um lugar lá que é o lugar que você se dá conta que na hora da sua morte, naquelas horas que você tem plena consciência de que você é um ser que vai morrer, naquela hora, você é só você."

(Márcia Tiburi)